A Qualcomm e a Samsung Electronics fecharam uma parceria para fabricar uma nova geração de chips usando o processo de 2 nanômetros. O acordo foi confirmado durante a Snapdragon Summit 2026 e envolve as fábricas da Samsung Foundry, divisão responsável pela produção de semicondutores da companhia sul-coreana. A tecnologia deve aparecer em processadores para celulares, tablets, notebooks e outros dispositivos.
A notícia foi publicada pelo Canaltech em 28 de setembro. Embora ainda não exista uma lista de produtos nem uma data para o primeiro aparelho, a parceria é importante porque aproxima duas empresas que já estão presentes no ecossistema de dispositivos vendidos no Brasil. A Qualcomm projeta a família Snapdragon, enquanto a Samsung fabrica aparelhos Galaxy e também controla uma das principais linhas globais de produção de chips.
O número 2 nm indica uma geração de fabricação, não uma medida simples que permita prever sozinho a velocidade do produto. Processos mais avançados podem aumentar a densidade de transistores, reduzir o consumo de energia e melhorar o espaço disponível para recursos de computação. O resultado depende do desenho do chip, da memória, do sistema de resfriamento e do software, mas a mudança pode ajudar fabricantes a colocar mais desempenho em aparelhos menores.
O que está no centro do acordo
Chris Patrick, vice-presidente sênior e chefe da divisão de celulares da Qualcomm, confirmou que a empresa utilizará as fábricas da Samsung Foundry para produzir novos processadores. As companhias não divulgaram a duração do contrato nem detalhes comerciais sobre os volumes. Também não ficou claro se toda a próxima linha Snapdragon será produzida pela Samsung ou se o acordo atenderá famílias e lotes específicos.
A Qualcomm já trabalha com mais de uma fabricante porque a cadeia de semicondutores exige capacidade, rendimento e estabilidade. Rendimento é a proporção de chips que saem funcionando corretamente de uma mesma lâmina de silício. Quando um processo novo começa, melhorar esse indicador é tão importante quanto anunciar números de desempenho. Uma parceria de longo prazo pode dar à Qualcomm mais uma rota de produção e à Samsung uma oportunidade de provar a evolução de seu processo avançado.
Por que 2 nm interessa ao usuário
Em um celular, o ganho mais visível de um novo processo não aparece apenas em testes de benchmark. Um chip mais eficiente pode entregar o mesmo desempenho consumindo menos bateria, ou manter uma tarefa pesada por mais tempo antes de reduzir a frequência por causa do calor. Isso é especialmente relevante para recursos de inteligência artificial executados no próprio aparelho, como tradução, edição de fotos, reconhecimento de voz e geração de conteúdo.
O processamento local reduz a necessidade de enviar tudo para a nuvem. Além de diminuir a dependência de uma conexão estável, ele pode proteger informações sensíveis, desde que o aplicativo e o sistema operacional tratem os dados corretamente. Para que essa promessa funcione, o chip precisa equilibrar unidades de processamento geral, gráficos e aceleradores de IA. A fabricação em 2 nm é uma das peças desse quebra-cabeça, não uma garantia isolada de privacidade ou autonomia.
Tablets e notebooks também podem se beneficiar. Em computadores finos, a eficiência térmica determina quanto tempo um processador consegue trabalhar em carga alta sem reduzir a velocidade. Em dispositivos com ventoinhas pequenas ou sem ventoinha, cada watt economizado abre espaço para tarefas mais complexas. Um Snapdragon produzido em um processo mais avançado pode competir melhor com chips baseados em arquiteturas de baixo consumo, inclusive em equipamentos que priorizam bateria e mobilidade.
Memória LPDDR6 entra na mesma conversa
O acordo também envolve o avanço para a memória LPDDR6, padrão voltado a dispositivos móveis. A memória de trabalho guarda temporariamente os dados usados pelo processador. Quando a velocidade e a largura de banda aumentam, o sistema consegue alimentar melhor as unidades de processamento, mas também precisa lidar com consumo, temperatura e comunicação entre os componentes.
Segundo o Canaltech, Qualcomm e Samsung trabalham em soluções que atacam desafios de sinalização e gerenciamento de canais. Esse detalhe é menos chamativo que a litografia de 2 nm, mas tem impacto real. Um processador rápido pode ficar limitado se a memória não entregar os dados na mesma velocidade. Em aplicações de IA, a movimentação de dados costuma consumir tanto tempo e energia quanto a operação matemática feita pelo acelerador.
Não é só sobre o processador
O desempenho final de um celular depende de todo o sistema. A fabricante precisa combinar o chip com memória suficiente, armazenamento rápido, antenas, câmeras, tela e uma camada de software bem otimizada. Um aparelho pode usar um processo de fabricação novo e ainda ter ganhos discretos se o limite estiver em outro componente. Por isso, os primeiros produtos deverão ser avaliados pelo conjunto, e não apenas pelo rótulo de 2 nm.
Uma relação que muda dentro do mercado mobile
Qualcomm e Samsung já têm uma relação antiga. Os chips Snapdragon aparecem em diferentes gerações de celulares Galaxy, relógios inteligentes e outros equipamentos. Ao mesmo tempo, a Samsung manteve durante anos a linha Exynos, desenvolvida internamente para alguns aparelhos. O novo acordo de fabricação não elimina automaticamente essa estratégia, mas cria uma aproximação maior entre a empresa que desenha os chips e a que produz parte deles.
A mudança também ocorre em um momento no qual a Samsung Foundry tenta disputar contratos com a TSMC, principal fornecedora mundial de chips avançados. A Qualcomm anteriormente tinha acordo com a fabricante taiwanesa, e a razão para a nova decisão não foi informada. Para consumidores e empresas, a diversificação pode reduzir a dependência de uma única rota, mas também cria a necessidade de acompanhar a qualidade de cada processo de produção.
O que acompanhar nos próximos meses
O próximo passo será descobrir quais produtos realmente usarão os chips fabricados pela Samsung. É preciso observar anúncios de celulares Snapdragon, notebooks com foco em IA e dispositivos vestíveis. Também será importante verificar consumo medido em uso real, temperatura, suporte de software e disponibilidade no Brasil. A presença de uma fábrica ou de um chip no mercado internacional não garante que o aparelho chegará ao país pelo mesmo preço ou na mesma configuração.
Para quem está pensando em trocar de celular, a parceria não é motivo suficiente para adiar uma compra imediatamente. Os primeiros modelos podem demorar, e a diferença entre gerações só poderá ser avaliada com testes independentes. Para desenvolvedores, porém, a direção é clara: aplicações móveis terão acesso a mais capacidade local, e recursos de IA deverão ser projetados considerando aceleradores, memória e consumo desde o início.
A parceria Qualcomm-Samsung é, portanto, menos um lançamento de produto e mais um sinal da próxima disputa por eficiência. Os chips de 2 nm prometem colocar mais processamento em equipamentos compactos, mas a entrega dependerá da fabricação, da memória e do software. Quando os primeiros aparelhos aparecerem, o que importa será saber se a tecnologia transforma essa vantagem de laboratório em bateria maior, menos calor e experiências melhores para quem usa o dispositivo todos os dias.



